Porém,
e se viesse do Norte da Europa uma “peste” que nos impedisse de continuar
admirar a Arte e a praticá-la? E se todos os artistas que lutaram por ela e
continuam a lutar fossem impedidos de viver e transmitir a Arte?
O
que aconteceu a Portugal, um dos países mais ricos culturalmente?
Hoje,
é pertinente a pergunta: como trabalham os artistas portugueses?
Todos
os anos a Dgartes (Direcção Geral das Artes) proporciona um concurso a que
vários projectos artísticos concorrem para obter subsídios e apoios para
desenvolver as suas ideias. “O Apoio às Artes traduz-se no apoio à criação,
produção e difusão das artes bem como na consolidação, qualificação e
dinamização das redes de equipamentos culturais” defende.
Posto
isto, podemos concluir a importância destes apoios. Sem eles, a oportunidade de
fazer Arte em Portugal diminui, bloqueando a maioria dos projectos artísticos
nacionais. Sempre que um projecto artístico morre é um pedaço de Portugal que
morre também!
Será
alarmante saber que este mesmo concurso, que dinamiza a Arte, para o próximo
ano, está suspenso, deixando vários Artistas sem saber como iniciar os seus projectos.
É
difícil trabalhar em épocas de crise, mais difícil ainda será trabalhar numa
área desprezada pelo Estado. Sabia que ser-se ator, escultor ou cantor em
Portugal não é considerado profissão? Pois é verdade, não é. A Comunidade
Artística portuguesa, aos longos dos anos, tem vindo a deparar-se com a
discriminação social. “Ser-se Artista é uma brincadeira” dizem muitos
portugueses e afirma, indirectamente o Estado. Não acredita? Ora veja: sabe
qual é o Ministério que defende e organiza a Cultura Nacional? O Ministério da
Cultura? Seria, mas não! O ano passado os Artistas portugueses depararam-se com
o encerramento da única instituição governamental que os representava perante o
Estado. Sendo assim, que apoio tem a Arte Nacional?
Actualmente,
para se elaborar um projecto artístico é necessário um tempo de ensaio, um
auditório ou sala de espectáculos, artistas, técnicos, aparelhos electrónicos,
cenários e uma fase de divulgação perante o público. Deste modo, como é que os
Artistas conseguem iniciar projectos. São muitos os que não conseguem. Aqueles
que iniciam, vivem apenas de bilheteiras, bilheteiras essas que, muitas das
vezes, são reduzidas, por respeito ao público, e sem falar do pagamento das despesas
que um espectáculo acarreta! Vejamos, se depois de pagar luz, aluguer de espaço,
técnicos e materiais, qual o lucro que terá o Artista? Em muitos casos, 100
euros mensais… Consegue-se viver com 100 euros? A resposta é óbvia: não!
Para
demonstrar o estado em que a Cultura nacional está, e como a Crise a afectou
falei com Jorge Silva Melo, o fundador e director da companhia Artistas Unidos.
Quando lhe perguntei as principais dificuldades e o que pensa fazer para
combater a crise a sua resposta foi a seguinte:
“O caso dos Artistas Unidos, companhia que
dirijo, é muito singular. Durante muitos anos, não tivemos casa própria. E só
abrimos há um ano o TEATRO DA POLITÉCNICA. A novidade e um trabalho intenso tem
atraído muitos espectadores E a sala - pequenina - está sempre cheia. Isso não
significa que as receitas sejam suficientes para as despesas - que são grandes,
e cada vez maiores. Mas entre 19 de Outubro de 2011 e 19 de Outubro de 2012 fizemos,
só no TEATRO DA POLITÉCNICA, 9 espectáculos 3 exposições, 232 representações,
tivemos 10.402 espectadores lançámos 9 Livrinhos. E além disso, tivemos espectáculos em Guimarães e no TNDMII. E mais de trinta representações fora de Lisboa. O
Estado, este ano de 2012, irá cobrir cerca de 40% do nosso orçamento. O nosso
grande problema neste momento é não sabermos com o que contar para o próximo
ano: quanto vai a Direcção Geral das Artes cobrir das nossas despesas? Os
mesmos 45%? Não sabemos. Os concursos não abriram, as verbas não estão
anunciadas. E nós temos estreias marcadas para Janeiro e para Fevereiro Ou
seja: em Dezembro temos que estar a ensaiar. A pagar que honorários? A contar
com que orçamento? Essa a grande incógnita. E não podemos parar: neste momento
trabalham nos Artistas Unidos vinte e tal pessoas, entre técnicos e artistas.
Não vamos desperdiçar o seu tempo suspendendo programação, nem adiando
estreias. Mas o que vamos fazer? Ninguém sabe.”
Na
verdade, seria de esperar que o actual Estado do país reflectisse uma nova forma
de Arte, novas ideias, novos temas, novas apresentações… mas não. A “apagada e
vil tristeza” que Camões refere na sua obra, assombra a comunidade artística
portuguesa, impedindo-a de criar e se adaptar a uma nova forma de fazer Arte. É
o pessimismo português que sobrecarrega os ombros dos nossos Artistas. Contudo,
é de louvar a comunidade artística portuguesa que não desiste, lutando todos os
dias pela Cultura e, consequentemente, pelo nosso país.
Relembremos
a Manifestação de 13 de Outubro em que artistas, mas também o cidadão comum,
saiu para rua lutando por apoios e divulgação da Cultura. Para a Comunidade
Artística portuguesa foi um avanço, pois para além da união entre a Arte e o
povo, foi também uma amostra da sua importância na Nação.
Se
andarmos para trás no tempo, revivemos a situação da Arte no século passado. Os
artistas não tinham qualquer apoio do Estado para os seus projectos ou seja, em
vez de evoluirmos, estamos perante um retrocesso no desenvolvimento da Cultura
Nacional.
Muito
mais que triste, esta situação é uma vergonha para uma Nação que tanto deve à
Cultura!
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